Educando filhos bilíngues

Uma mudança de país traz muitos questionamentos e, para quem tem filhos, há alguns bastante específicos. Um deles é a questão da língua. Muitos pais brasileiros têm dúvidas sobre como lidar com o bilinguismo: de que forma devem conduzir o aprendizado de um novo idioma, ao mesmo tempo que desejam preservar a língua portuguesa? Para tirar algumas dessas dúvidas, nós conversamos com a pedagoga Camilla Cariello França que mora em Toronto, no Canadá, desde 2016, e tem um projeto chamado Português Lúdico, pensado para estimular e desenvolver a língua portuguesa como língua de herança (oral e escrita).  

Então, Camilla, para começar, explica pra gente o que é o PLH, Português como Língua de Herança?

“Uma língua de herança é aquela limitada a um grupo social ou ao ambiente familiar. Desta forma, se trata de uma língua minoritária no cotidiano do indivíduo. O português, por exemplo, é uma língua de herança para os filhos de brasileiros que moram no exterior, pois é a língua da família, mas não é a língua predominante no dia a dia”. 

Por que é importante promover atividades em português com crianças brasileiras ou que têm pais brasileiros e moram fora do Brasil?

“Atividades que promovem a língua de herança são essenciais se quisermos que nossos filhos adquiram fluência na língua portuguesa, de forma oral e escrita. 

O português rapidamente se torna a língua minoritária quando moramos fora do Brasil e como tudo que praticamos pouco vai se perdendo. Isso acontece principalmente para as crianças menores, pois ainda foram expostas a um universo limitado da língua portuguesa e já se deparam com outro idioma. Mesmo quando em casa a língua falada predominantemente é o português, ao ir para a escola ou creche essa criança entra em contato com um universo muito maior em inglês/francês (ou outra língua). 

Encontros e atividades que tenham o PLH como foco irão suprir essa defasagem e garantir que a criança mantenha e desenvolva o português”. 

Quais são as maiores dificuldades das crianças que vivem essa realidade (dentro de casa falam uma língua e, na escola, outra)?

“Num primeiro momento, ao vir morar no Canadá, aprender a língua inglesa (ou francesa) irá gerar um pequeno desconforto para a criança. Mas com pouco tempo o idioma se torna majoritário no cotidiano e deixa de ser um desafio. 

Quando a família decide imigrar definitivamente, o maior desafio para essa criança é compreender a relevância da língua portuguesa vivendo em um país no qual a língua predominante é outra e, portanto, cultivar a língua de herança torna-se o maior desafio”. 

A criança que é exposta a mais de uma língua no momento em que está aprendendo a falar, demora mais a desenvolver a fala? Se sim, como resolver isso?

“Pesquisas confirmam que crianças multilíngues não demoram mais para começar a falar do que crianças monolíngues. Crianças multilíngues se desenvolvem em ritmos diferentes, da mesma forma que as monolíngues, ou seja, algumas vão falar cedo, outras vão falar mais tarde.

Uma outra grande questão para a qual alguns estudos apontam é que as crianças possuem um repertório X de palavras e quando neste repertório você inclui palavras em duas ou mais línguas a variedade de palavras que esta criança fala pode parecer menor. Logo, uma criança multilíngue que fala ‘bola’ e ‘ball’ está trazendo duas palavras diferentes para o seu repertório linguístico, ainda que elas possuam o mesmo significado”.

No momento da aprendizagem da fala, os pais devem definir apenas um idioma para falar com a criança?

“Essencialmente os pais devem possuir uma única língua para se comunicar com as crianças, independente da idade dessa criança. Isso diminui confusões e gera consistência. Não há uma idade que possamos dizer “agora meu filho já sabe português e posso me comunicar com ele em outro idioma”. Eu não defendo que o pai finja que não fala ou não entende outro idioma com o filho jamais, mas que seja consiste na língua principal que utiliza para se comunicar com seu filho”. 

Algumas crianças bilíngues acabam misturando as palavras de um idioma e de outro. É comum, normal? Pode ser um problema ou é algo que em algum momento vai passar?

“Em alguns casos, essa troca pode ser carência de vocabulário e conhecimento do idioma. Só os pais com a ajuda de um profissional poderão definir isso.  Contudo, entre indivíduos multilíngues é comum a alternância de códigos, ou seja, usar duas (ou mais) línguas ao mesmo tempo. Um falante de herança pode passar de uma língua a outra em enunciados diferentes ou até mesmo no meio de uma frase, ou inserir palavras ou “pedaços” de uma língua quando está falando a outra. Isso não é algo exclusivo da criança e provavelmente acontece com você também. 

Essa alternância não significa necessariamente que o falante não seja fluente. Isso pode sinalizar que o falante se sente à vontade com os dois códigos e passa de um a outro com facilidade para tornar eficiente a comunicação. O code switching faz parte da proficiência e da identidade linguística dos falantes de herança. Embora se deva incentivar o uso da língua de herança (no nosso caso, o português), não devemos reprimir as ocorrências de alternância de códigos”.

De que forma os pais podem auxiliar a criança com o bilinguismo? 

“Em primeiro lugar, os pais devem usar a língua materna para se comunicar com seus filhos. Além disso, é importante reconhecer que o português possivelmente não será a língua de maior fluência da criança e portanto exigirá incentivo. 

É muito importante que a criança tenha oportunidades de contato com o idioma. Quanto mais português ela ouvir, mais ela compreenderá. Contudo, para o desenvolvimento da fala, é muito importante que a criança tenha oportunidades de interação ativa, isto é, participar de situações em que ela seja o sujeito que produza linguagem. 

A possibilidade de participar de uma comunidade de brasileiros fará toda a diferença. Se o português for apenas a língua do papai e da mamãe, a capacidade desta criança desenvolver o idioma será limitada.  Portanto, participar de eventos, brincadeiras na casa de um amigo que fala português, falar com familiares, buscar projetos de incentivo ao PLH (POLH) ou aulas particulares é muito importante”. 

Sobre o projeto Português Lúdico que é baseado em Toronto, quando e como surgiu a ideia?

“Quando me mudei para o Canadá em 2016 eu já trabalhava há anos com educação bilíngue no Brasil. Me fiz muitas perguntas sobre como seria minha carreira profissional aqui no Canadá, mas sobretudo pensava sobre o futuro da minha filha de 1 ano e 10 meses na época. Eu sabia que ela aprenderia inglês sem nenhum desafio muito grande, mas sabia que a língua portuguesa precisaria ser estimulada para não ser perdida. 

Comecei a pesquisar sobre língua de herança e imediatamente me apaixonei sobre o tema. Ainda no Brasil, conversei com uma amiga pedagoga que também estava de mudança para o Canadá no mesmo ano e juntas sonhamos com este projeto. 

Em Toronto alugamos um espaço no qual reuníamos um grupo de brasileirinhos e oferecíamos diversas atividades lúdicas a fim de que aquelas crianças se conectassem com a língua portuguesa e com outras crianças de famílias brasileiras de forma a desenvolver apreço pelo idioma, cultura e identidade brasileira. 

Com a pandemia, adaptamos o Português Lúdico para um programa 100% online que alcança agora brasileiros mundo afora. 

No começo eu trabalhava full time e me dedicava paralelamente ao projeto que cresceu e ganhou visibilidade e reconhecimento. Agora este é meu trabalho full time e minha grande paixão”. 

Se você ficou interessado no tema e quiser saber mais sobre o Português Lúdico, basta acessar a página do projeto no Instagram.

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